A prática regular de atividade física é amplamente associada a benefícios para a saúde, mas o excesso pode produzir o efeito contrário quando o exercício passa a ocupar espaço desproporcional na rotina. Um estudo recente sobre dependência de exercícios físicos aponta que o comportamento compulsivo pode estar relacionado a consequências negativas para o corpo, a saúde mental e os relacionamentos sociais. 

A pesquisa publicada no Journal of Behavioral Addictions analisou diferentes estudos sobre o chamado vício em exercícios. Os trabalhos avaliados apresentaram resultados bastante variados: entre 3% e 42% dos participantes foram classificados como pessoas sob risco de dependência. Os pesquisadores, porém, fazem uma ressalva importante: esses números não significam que todas essas pessoas tenham necessariamente um transtorno, já que muitos levantamentos utilizaram questionários de rastreamento, e não avaliações clínicas. 

Um dos principais sinais de alerta é a perda de controle sobre a prática esportiva. A preocupação deixa de ser apenas manter uma rotina saudável e passa a envolver uma necessidade constante de treinar, mesmo diante de consequências negativas. Entre os comportamentos associados estão a dificuldade para reduzir os exercícios, o desconforto quando não é possível treinar e a continuidade das atividades mesmo em situações de doença ou lesão. 

Outro ponto destacado pelos pesquisadores é o impacto social. Quando os exercícios começam a consumir tempo excessivo, outras áreas da vida podem ser deixadas de lado. Compromissos familiares, relações pessoais e atividades profissionais ou de lazer podem perder espaço para a rotina de treinamento. Esse padrão é considerado um dos elementos que ajudam a diferenciar uma prática esportiva saudável de um comportamento potencialmente prejudicial.

Os efeitos também podem aparecer no campo psicológico. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no Journal of Affective Disorders, que reuniu 79 estudos com 40.329 participantes, encontrou associações entre dependência de exercícios e problemas como transtornos alimentares, sintomas obsessivo-compulsivos, depressão, estresse, ansiedade, alterações na imagem corporal e dificuldades de regulação emocional. 

A intensidade da atividade física também pode influenciar essas relações. De acordo com a análise, níveis mais elevados de exercícios estiveram associados a relações mais fortes entre a dependência de exercícios e sintomas de ansiedade, depressão e comportamento obsessivo-compulsivo. Os autores ressaltam, entretanto, que associação não significa necessariamente que um fator seja a causa direta do outro. 

No aspecto físico, a prática exagerada pode aumentar a exposição a lesões e comprometer a recuperação do organismo. Pesquisas sobre o tema também apontam possíveis consequências relacionadas ao excesso de treinamento e à deficiência energética, especialmente entre atletas submetidos a cargas elevadas de preparação. O Comitê Olímpico Internacional reconhece a dependência de exercícios como um possível problema comportamental entre atletas de alto rendimento, embora ela ainda não seja uma condição oficialmente classificada como diagnóstico no DSM-5-TR. 

Os especialistas também alertam que é preciso diferenciar dedicação esportiva de dependência. Uma pessoa pode treinar com frequência, estabelecer metas e ter grande comprometimento com determinada modalidade sem apresentar comportamento patológico. O problema surge principalmente quando existe perda de controle e o indivíduo continua se exercitando apesar de prejuízos evidentes.

O tratamento, quando necessário, não significa obrigatoriamente abandonar completamente a atividade física. A literatura especializada aponta que intervenções psicológicas, estratégias de reabilitação e ajustes na rotina de treinamento podem fazer parte da abordagem. Também é importante investigar possíveis problemas associados, como ansiedade, depressão e transtornos alimentares. 

Assim, a principal recomendação é buscar equilíbrio. O exercício continua sendo uma ferramenta importante para a saúde, mas a prática deve respeitar os limites do organismo e não comprometer outras dimensões da vida. Quando treinar deixa de ser uma escolha e passa a ser uma obrigação acompanhada de sofrimento ou prejuízos, uma avaliação profissional pode ajudar a identificar o problema e definir a melhor estratégia.