Especialista em política brasileira afirma que o presidente enfrenta um ambiente de desânimo entre os eleitores, apesar de indicadores econômicos considerados positivos.
Mesmo com indicadores econômicos que apontam estabilidade em diferentes áreas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva chega ao período eleitoral enfrentando um desafio que vai além dos números: a falta de entusiasmo de parte significativa do eleitorado. A avaliação é da cientista política americana Wendy Hunter, professora da Universidade do Texas e uma das principais estudiosas do Partido dos Trabalhadores (PT), que compara o momento vivido pelo presidente brasileiro ao cenário enfrentado pelo ex-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, antes de deixar a Casa Branca.
Em entrevista à BBC News Brasil, Hunter afirma que o país vive um sentimento de desânimo generalizado, fenômeno que, segundo ela, reduz a capacidade de mobilização política mesmo diante de uma economia considerada relativamente sólida. Para a pesquisadora, esse contexto cria dificuldades para campanhas eleitorais e amplia a sensação de distanciamento entre os cidadãos e o debate político.
A especialista também destaca que as análises tradicionais nem sempre conseguem captar as mudanças no comportamento do eleitor brasileiro, especialmente entre as gerações mais jovens. Na avaliação dela, esse novo perfil do eleitorado tem influenciado a dinâmica política e pode exercer papel decisivo no resultado das eleições.
Hunter ainda analisa os desafios do futuro do PT após a saída de Lula do cenário político, além de discutir como posicionamentos do presidente em relação a governos estrangeiros repercutem internacionalmente. Segundo a pesquisadora, compreender as transformações sociais e geracionais será fundamental para interpretar os rumos da política brasileira nos próximos anos.
Além da comparação com o cenário político norte-americano, Wendy Hunter ressalta que o comportamento do eleitor brasileiro tem passado por mudanças profundas nos últimos anos. Segundo a pesquisadora, fatores como a fragmentação das redes sociais, a polarização política e a diminuição da identificação com partidos tradicionais dificultam a construção de uma base de apoio consistente para qualquer candidato à Presidência da República.
Na avaliação da especialista, o chamado “efeito Biden” não está relacionado à idade dos líderes, mas à percepção de parte da população de que, mesmo diante de indicadores econômicos considerados favoráveis, o governo não consegue despertar entusiasmo suficiente para mobilizar os eleitores. Ela observa que essa desconexão entre os resultados econômicos e o humor da população também foi registrada nos Estados Unidos durante a gestão de Joe Biden.
Outro ponto destacado por Hunter é que o Partido dos Trabalhadores precisará discutir seu futuro político nos próximos anos. Para a cientista política, a legenda enfrenta o desafio de renovar lideranças e adaptar seu discurso às transformações da sociedade brasileira, especialmente diante de um eleitorado mais jovem, com novas prioridades e formas diferentes de consumir informação e participar da política.
Com o início da corrida eleitoral, especialistas apontam que temas como custo de vida, segurança pública, geração de empregos e qualidade dos serviços públicos deverão ganhar espaço no debate entre os candidatos. Nesse cenário, a capacidade de conquistar os eleitores indecisos e reverter o sentimento de desânimo identificado por pesquisadores poderá ser determinante para o resultado das urnas em 2026.