O Parlamento da Ucrânia aprovou uma lei que permite a alguns detentos trocar parte ou todo o tempo de prisão por serviço militar, em resposta à escassez urgente de combatentes na guerra contra a Rússia. Sob essa nova política, indivíduos com menos de três anos restantes de pena são elegíveis, desde que não tenham sido condenados por crimes graves como assassinato múltiplo, abuso sexual, corrupção ou traição.
Mais de 3.000 presos já manifestaram desejo de se alistar sob essas condições, e cerca de 613 foram oficialmente liberados para integrar unidades de ataque após treinamento específico. Essas tropas compostas por ex-detentos participam de operações nos setores mais perigosos do front, incluindo Donetsk, Kurakhove, Chasiv Yar, entre outros. As condições são duras: enfrentam semanas intensas de instrução militar, risco elevado de fatalidades ou ferimentos graves.
Dentro desse contexto, muitos detentos expressam ambição mista: defesa patriótica, desejo de redenção, mas também a “liberdade” como escape da prisão. Mykhailo, um dos participantes, disse que “viver fora das celas, ainda que sob fogo, é muito melhor”. Autoridades ucranianas afirmam que esse mecanismo serve não só para aumentar as fileiras militares mas também como instrumento de ressocialização. Contudo, críticos alertam para os riscos legais, éticos e humanitários — inclusive o perigo de abuso, comandantes com pouca experiência trabalharem com combatentes com históricos criminais, e a possibilidade de que alguns sejam usados como “descartáveis” nas ofensivas mais arriscadas.
Em síntese, o apelo de “posso matar e não vou ser condenado” — ainda que não literal — captura algo da lógica desse programa: para muitos detentos, lutar na guerra equivale a evitar pena ou punição. Mas a troca envolve risco extremo, e as promessas dependem de aprovação legal, seleção rigorosa e sobrevivência. A medida levanta incógnitas sobre justiça, moral militar e os limites entre punição e sacrifício num conflito que já consome milhares de vidas.
