A nova lógica das plataformas digitais tem servido como vitrine para o crime organizado: não basta ostentar uma arma, é preciso compartilhá-la. Conforme reportagem da BBC News Brasil, perfis no Instagram, TikTok e outras redes exibem fuzis, dinheiro, carros de luxo e símbolos de facções. Em muitos casos, essas publicações coincidem com jovens que acabam mortos ou presos em operação policial — como no levantamento de uma megaoperação no Rio, em que um arquivo elaborado pela Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro associava contas nas redes sociais a integrantes mortos.
Analistas e autoridades afirmam que esse tipo de exibição visa atrair adolescentes em busca de visibilidade e pertencimento. A promotora de Justiça da área de Infância e Juventude do Rio, Gabriela Lusquiños, afirma que “a estética da ostentação ligada ao tráfico … ganhou força com a internet” ao oferecer aos jovens invisíveis uma nova forma de reconhecimento. Segundo o professor Rafael Alcadipani, da Fundação Getulio Vargas (FGV), “Não basta o sujeito ter o fuzil; ele quer postar o fuzil, ostentar o carro, exibir o crime que cometeu.”
Essas redes de ostentação não operam de forma isolada: relatório da Infoverus aponta que as grandes facções usam as redes sociais como palco para recrutar “narco babys”: crianças e adolescentes atraídos por um estilo de vida glamouroso, com armas, carros potentes e festas ostentadas. Esse cenário agrava a dinâmica de entrada contínua de novos integrantes no crime, o que estudos internacionais já apontam como vital para a manutenção de organizações criminosas.
Para enfrentar esse fenômeno, além da repressão tradicional, especialistas defendem políticas que ampliem oportunidades educacionais e de emprego nas áreas vulneráveis, com uma abordagem integrada entre controle de redes sociais, vigilância da atividade online e fortalecimento de vínculos sociais reais.
