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9 de junho de 2026
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Carbono azul avança como estratégia essencial no combate às mudanças climáticas

© Fernando Frazão/Agência Brasil
© Fernando Frazão/Agência Brasil

Ecossistemas costeiros ganham protagonismo nas discussões globais por sua capacidade de capturar e armazenar grandes volumes de carbono.

Os chamados ecossistemas de “carbono azul” vêm conquistando cada vez mais espaço nas negociações internacionais sobre o clima e na formulação de políticas voltadas à preservação dos oceanos. O termo se refere ao carbono capturado e armazenado por ambientes costeiros, como manguezais, marismas e pradarias marinhas, considerados altamente eficientes na remoção de dióxido de carbono (CO₂) da atmosfera.

Especialistas destacam que esses ambientes naturais podem armazenar carbono por centenas ou até milhares de anos em seus sedimentos, contribuindo significativamente para a redução dos gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento global. Além disso, esses ecossistemas desempenham papel fundamental na proteção da biodiversidade, na manutenção da pesca artesanal e na redução dos impactos provocados pela erosão costeira e pela elevação do nível do mar.

O tema ganhou destaque na agenda climática internacional diante da necessidade de ampliar soluções baseadas na natureza para enfrentar as mudanças climáticas. Países com extensas áreas costeiras, como o Brasil, têm sido incentivados a investir em pesquisas, monitoramento e estratégias de conservação desses habitats. Segundo especialistas ouvidos pela Agência Brasil, proteger os ecossistemas marinhos pode gerar benefícios ambientais, sociais e econômicos, além de fortalecer os compromissos assumidos pelos países nos acordos climáticos globais.

O Brasil possui uma das maiores extensões de manguezais do planeta, distribuídas ao longo do litoral, o que representa um importante patrimônio ambiental e uma oportunidade estratégica para ampliar iniciativas de mitigação das emissões de carbono. Entretanto, pesquisadores alertam que a degradação causada pela ocupação irregular, pela poluição e pelo desmatamento desses ambientes compromete sua capacidade de capturar carbono e ameaça comunidades que dependem diretamente desses recursos naturais.

À medida que os oceanos ganham mais relevância nas discussões climáticas internacionais, o carbono azul desponta como uma ferramenta promissora para conciliar conservação ambiental, desenvolvimento sustentável e enfrentamento da crise climática.

A diretora do Programa Costeiro Marinho da Conservação Internacional (CI-Brasil), Natali Piccolo, destacou que o papel dos oceanos no equilíbrio climático global ainda é pouco reconhecido pela sociedade. “O oceano absorve cerca de 30% das emissões globais de CO₂ e produz mais da metade do oxigênio que respiramos, de acordo com dados da SOS Oceano”, afirmou. Ela acrescentou que “A Amazônia é comumente chamada de ‘pulmão do mundo’, mas o oceano cumpre o equivalente a esse papel. O que não descarta, claro, a importância da floresta tropical na regulação do clima”.

Especialistas ressaltam que o Brasil ocupa posição privilegiada nesse debate ambiental por abrigar o maior sistema contínuo de manguezais do mundo, localizado na costa amazônica. Essa característica coloca o país em situação estratégica para liderar iniciativas baseadas na natureza voltadas à mitigação dos efeitos das mudanças climáticas. Entretanto, a analista de conservação do WWF-Brasil, Marina Corrêa, alerta que os ecossistemas marinhos ainda recebem menos atenção do que outros biomas nacionais. “O mar ainda é, em muitos aspectos, o sistema invisível da conservação brasileira. Historicamente, o oceano foi tratado como uma imensidão azul vazia, quando na verdade é um território vivo, cheio de biodiversidade, cultura, trabalho e modos de vida”, declarou.

Segundo Marina Corrêa, o Sistema Marinho-Costeiro brasileiro ocupa cerca de 5,7 milhões de quilômetros quadrados, o equivalente a aproximadamente 40% do território nacional. Além disso, mais da metade da população brasileira vive nessa faixa costeira. Apesar dessa relevância econômica, social e ambiental, biomas como Amazônia, Cerrado e Mata Atlântica ainda concentram a maior parte da atenção pública, política e dos investimentos destinados à conservação ambiental.

O avanço dos projetos relacionados ao carbono azul também tem provocado debates sobre a participação das comunidades tradicionais na gestão desses territórios. Para Marina Corrêa, iniciativas bem-sucedidas precisam ir além da simples contabilização de carbono. “O sucesso dessas iniciativas não deve ser medido apenas pela quantidade de carbono armazenado, mas também pela capacidade de fortalecer territórios, conservar a biodiversidade e melhorar a qualidade de vida das pessoas que historicamente cuidam desses ecossistemas”, afirmou.

Os benefícios dos oceanos vão muito além do armazenamento de carbono. De acordo com Natali Piccolo, “Globalmente, a maior renda do oceano é gerada pela pesca, que sustenta 100 milhões de empregos e produz 80 milhões de toneladas de pescado marinho, além de 30 milhões de toneladas da aquicultura marinha, o que sustenta a segurança alimentar de milhares de pessoas, por fornecer proteína de alta qualidade”. No Brasil, cerca de 1,7 milhão de pescadores artesanais dependem diretamente da preservação dos ecossistemas marinhos, segundo dados do Registro Geral da Atividade Pesqueira, do Ministério da Pesca e Aquicultura.

Pesquisadores alertam que a destruição de manguezais, marismas e pradarias marinhas não apenas reduz a capacidade desses ambientes de capturar dióxido de carbono, mas também pode liberar para a atmosfera o carbono acumulado ao longo de décadas ou até séculos. Além de agravar o aquecimento global, a degradação compromete serviços essenciais, como a proteção natural do litoral, a manutenção dos estoques pesqueiros e a conservação da biodiversidade costeira.

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