O custo elevado dos empréstimos continua limitando o acesso da indústria brasileira ao crédito e dificultando o planejamento financeiro das empresas. Uma pesquisa divulgada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) em outubro de 2026 aponta que as taxas de juros permanecem como a principal barreira para os empresários que precisam de recursos para manter as operações, ampliar a produção ou investir no crescimento dos negócios.
De acordo com a Sondagem Especial nº 107, 76% das empresas industriais que enfrentaram dificuldades para contratar ou renovar financiamentos de curto e médio prazo citaram os juros elevados como um dos principais entraves. Nas operações de longo prazo, com vencimento superior a cinco anos, o problema foi mencionado por aproximadamente 69% dos empresários consultados.
O levantamento ouviu 1.701 empresas industriais de diferentes portes, sendo 692 pequenas, 612 médias e 397 grandes. As entrevistas foram realizadas entre 3 e 12 de agosto de 2026, considerando as condições de acesso ao crédito observadas entre fevereiro e julho do mesmo ano.
Embora o peso atribuído aos juros tenha diminuído em comparação com a pesquisa anterior, o indicador continua liderando a lista de dificuldades enfrentadas pelo setor. Em 2025, as taxas elevadas haviam sido mencionadas por 80% das empresas com obstáculos para obter crédito de curto e médio prazo e por 71% das que buscavam financiamentos mais longos.
Garantias e burocracia também dificultam empréstimos
Além das taxas de juros, as exigências feitas pelas instituições financeiras representam um obstáculo relevante para as empresas que precisam de recursos. A necessidade de oferecer garantias reais, como imóveis e outros bens, foi apontada por 33,4% dos empresários que enfrentaram dificuldades nas operações de curto e médio prazo. No financiamento de longo prazo, esse percentual chegou a 31,5%.
A burocracia também aparece entre os problemas relatados pelos industriais. Segundo a pesquisa, 13,6% dos entrevistados que tiveram dificuldades para obter crédito de curto ou médio prazo mencionaram os procedimentos burocráticos como um dos entraves.
Para as operações de longo prazo, outro desafio é o período de carência considerado insuficiente. Esse problema foi citado por 18,9% das empresas, indicando que parte dos empresários gostaria de contar com mais tempo antes de começar a pagar os financiamentos contratados.
As dificuldades podem comprometer decisões importantes, como a modernização de equipamentos, a ampliação das instalações e a contratação de trabalhadores. Quando o custo do dinheiro é elevado e as exigências bancárias são difíceis de cumprir, as empresas podem adiar projetos ou reduzir os investimentos planejados.
Empresas também enfrentam dificuldades para conseguir crédito
Os dados da CNI mostram que uma parcela expressiva da indústria sequer procurou novas operações de financiamento ou a renovação de contratos existentes durante o período analisado. No crédito de curto e médio prazo, 49,9% das empresas não tentaram obter recursos. Apenas 22,9% conseguiram contratar ou renovar financiamentos, enquanto 7,5% procuraram crédito, mas não tiveram sucesso.
Nas operações de longo prazo, a situação também chama a atenção. Cerca de 54% das empresas não buscaram financiamento. Outras 15,5% conseguiram contratar ou renovar operações, enquanto 9,2% tentaram obter os recursos, mas não conseguiram.
Considerando somente as empresas que efetivamente procuraram crédito, a proporção de tentativas frustradas aumentou em relação ao ano anterior. Nas operações de curto e médio prazo, o índice passou de 20% em 2025 para 24,7% em 2026. Nos financiamentos de longo prazo, a taxa subiu de 33% para 37,2%.
Os números indicam que a dificuldade não se resume ao custo dos empréstimos. Mesmo quando existe disposição para contratar crédito, parte das empresas não consegue concluir a operação nas condições necessárias para atender às suas necessidades financeiras.
Pequenas empresas são as mais prejudicadas
A pesquisa também evidencia diferenças importantes conforme o porte dos negócios. As pequenas e médias indústrias registraram os maiores índices de insucesso na busca por crédito de longo prazo, modalidade geralmente utilizada para financiar projetos que exigem maior volume de recursos e um prazo mais extenso para retorno financeiro.
Entre as pequenas empresas que procuraram financiamento de longo prazo, 48,2% não conseguiram obter os recursos. Nas médias empresas, o percentual foi de 48,1%. Entre as grandes indústrias, o índice ficou em 29,9%.
Esse cenário pode ampliar as dificuldades de competitividade dos negócios de menor porte, que frequentemente dispõem de menos garantias patrimoniais e possuem menor capacidade para absorver custos financeiros elevados. Sem acesso adequado a financiamentos, essas empresas podem encontrar obstáculos para modernizar suas estruturas, investir em tecnologia e aumentar a produtividade.
Capital de giro ganha espaço entre as finalidades do crédito
Outro aspecto destacado pela sondagem é a utilização dos financiamentos para cobrir despesas operacionais. Nas operações de curto e médio prazo, quase 60% das empresas apontaram o capital de giro como a principal finalidade dos recursos.
O capital de giro é utilizado para custear despesas cotidianas, como pagamento de salários, compra de matérias-primas, aquisição de insumos e manutenção das atividades produtivas. No crédito de longo prazo, 28,7% das empresas que buscaram, contrataram ou renovaram esse tipo de operação indicaram a mesma finalidade.
O percentual supera a participação dos financiamentos destinados à compra de máquinas e equipamentos, mencionada por 23,6% dos entrevistados, e à construção ou ampliação de instalações, citada por 11,6%.
A procura por recursos de longo prazo para pagar despesas correntes pode indicar dificuldades para equilibrar o fluxo de caixa. Em condições normais, financiamentos com vencimentos mais distantes são utilizados principalmente em investimentos que exigem tempo para gerar retorno, como expansão industrial e modernização da estrutura produtiva.
CNI aponta medidas para facilitar o acesso ao crédito
Questionadas sobre possíveis soluções para melhorar as condições de financiamento, as empresas apontaram a redução dos custos tributários e administrativos como a principal medida. A alternativa foi escolhida por 38,4% dos entrevistados para operações de curto e médio prazo e por 31,2% para financiamentos de longo prazo.
A ampliação das linhas públicas de crédito também apareceu entre as sugestões, recebendo 22,8% das indicações nas operações de curto e médio prazo e 26,3% nas de longo prazo. Já a simplificação das exigências estabelecidas pelos bancos foi mencionada por 21,1% e 22,1% dos participantes, respectivamente.
Os resultados reforçam a preocupação do setor industrial com as condições de financiamento e com os efeitos dos custos financeiros sobre a atividade econômica. Para os empresários, o acesso a recursos em condições adequadas é importante para manter a produção, preservar empregos e viabilizar novos investimentos.
A pesquisa da CNI mostra, portanto, que os juros elevados continuam sendo o principal entrave ao crédito industrial no Brasil, apesar da redução em relação ao levantamento anterior. A combinação entre custos financeiros, exigências de garantias e dificuldades de aprovação segue pressionando principalmente os negócios de menor porte, que dependem do financiamento para sustentar suas operações e ampliar sua participação no mercado.
Fonte: Agência Brasil, com base na Sondagem Especial nº 107 da Confederação Nacional da Indústria (CNI).







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